GUIMARÃES – Misteriosa harmonia na imperfeição de suas medidas 2018-01-31T18:50:08+00:00

WAKOLDA. MISTERIOSA HARMONIA NA IMPERFEIÇÃO DE SUAS MEDIDAS

Lêda Guimarães

Ex AE de la Escuela Brasileña de Psicoanálisis.

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Wakolda (Puenzo, 2013) é um filme que nos convida a admitir que a base do ideal nazista, que preconizava o império de uma raça, faz parte da nossa estrutura humana, já que este ideal se assenta no sonho inacessível da perfeição, sonho tão presente em nossas neuroses, o qual tem por função negar a falta ineliminavelmente humana.

O filme Wakolda, O médico alemão, dirigido por Lucía Puenzo em 2013, autora do mesmo livro, nos apresenta logo no inicio o encontro de um médico alemão com uma garota de 12 anos, ocorrido na rota do deserto da Patagônia, em 1960. Ocasião em que a família da garota estava se dirigindo para uma localidade próxima a Bariloche, para ocupar-se de uma hospedaria.

Ocorreu de imediato um encantamento entre o médico Helmut Gregor (Alex Brendemühl) e a garota. Houve, por um lado, instantaneamente o encantamento do médico pela garota e, por outro lado, naquele mesmo momento a garota também se encantou com o encantamento produzido nele, de tal modo que posteriormente ela assim se referiu a este encontro: “a primeira vez que ele me viu pensou que eu era uma espécie perfeita”.

Tal deslumbramento do Dr. Helmut Gregor é registrado em seu caderno de notas científicas através de um dito poético impregnado pelo impacto do enigma:

– “misteriosa harmonia na imperfeição de suas medidas”.

Dito que comporta o mistério do feminino, como habitualmente é referido pelos homens, especialmente quando este enigma é formulado em relação à imagem do corpo de uma mulher. Corpo que é tomado por eles como imperfeito, já que não corresponde ao espelho do corpo do homem. Porém, este corpo estranho, distinto e, portanto, enigmático é formulado através deste dito embriagado de perplexidade como tão misteriosamente belo na harmonia da imperfeição.

Mais além de situar o encantamento pelo feminino logo no início do filme, a autora e diretora desta obra escolheu dois nomes de mulher que não são quaisquer. A garota de 12 anos se chama Lilith (Florencia Bado), assim como sua mãe se chama Eva (Natalia Oreiro. Duas mulheres referidas na cultura judaica como as primeiras mulheres que existiram no mundo.

Conforme a cultura judaica Lilith tinha sido uma mulher criada por Deus antes de Eva, simultaneamente à criação de Adão e inclusive da mesma forma que ele foi criado, do barro. O que quer dizer que Lilith foi a primeira esposa de Adão, antecessora a Eva. Segundo tal cultura, a mulher criada do barro juntamente com Adão se mostrou indomável, maléfica e por ter se recusado a permanecer na presença de Adão foi expulsa do Paraíso. Algumas vezes ela é considerada como a serpente que teria seduzido Eva. Em outros momentos, Lilith é referida como uma sedutora que castrava os homens que seduzia, assim como também é considerada como um bicho essencialmente maléfico.

Lilith é, portanto, o nome na cultura judaica para designar o feminino, sobre o qual Adão não pode exercer o seu controle, e certamente por essa razão é referida como maléfica e destruidora. Assim como o gozo feminino costuma ser concebido pelos homens, já que este modo de gozo está fora das regras e das prescrições da significação fálica.

A personagem do filme Lilith também sofria constantemente com os bullyings dos seus colegas de escola, exatamente por não corresponder à prescrição da normalidade, especialmente porque sua estatura era muito baixa conforme a medida estatística da altura média para a sua idade. Quer dizer, Lilith está fora dos padrões exigidos pela normalidade fálica, norma universal, e por essa razão, o Dr. Helmut Gregor lhe propõe um tratamento experimental que produziria uma aceleração do crescimento que resultaria na sua inclusão na suposta normalidade universal.

¡Ocorre então no filme uma extraordinária reviravolta regida pela normalidade fálica…!

O encantamento do médico com uma “misteriosa harmonia na imperfeição de suas medidas” conduzia o espectador para esperar assistir no filme a resposta perversa sexual masculina, que tão habitualmente ocorre nos homens quando eles se debatem com o enigma do Outro sexo. Tal resposta perversa é referida por Lacan em vários momentos da sua obra, como podemos ver formulado pela via do matema no seu quadro da sexuação do Seminário 20 (Lacan, 1972-1973[1981]), onde a posição masculina só aborda o feminino através do objeto a fantasmático, conforme os sonhos de perversão de cada um. Assim como Lacan (1966-1967) também já havia formulado claramente no Seminário 14, ao nos dizer que “sustentar a pergunta sobre o gozo feminino” abre “a porta para todos os atos perversos”. O que Lacan (1973 [2012]) reafirma em Televisão, formulando “se o homem quer a mulher, só a alcança caindo no campo da perversão”. Formulações de Lacan que indicam claramente que a posição masculina, regida pelo gozo fálico, só encontra a resposta perversa diante do enigma do Outro sexo.

Porém, longe de ocorrer uma captura de Lilith no cenário da pedofilia, ocorreu diferentemente outra resposta perversa masculina: o uso e o abuso do corpo da garota num experimento médico que produzia febres e mal-estares constantes em Lilith.

Reviravolta regida por um ideal narcisista de perfeição, já que tanto o médico como a garota embarcam neste empreendimento torturante em busca da altura ideal do corpo.

Tanto Lilith como Eva, sua mãe, se encantam com a proposta do médico, e aderem ao tratamento às escondidas, já que o pai de Lilith mantinha uma desconfiança vigilante com relação ao médico, ainda que este tenha oferecido algumas benfeitorias à família. As duas mulheres também sonharam em fazer jus às normalidades fálicas de perfeição que tanto encantam os homens, assim como ocorre habitualmente com muitas e muitas mulheres, ainda que elas sempre saibam da ridiculez desse sonho inalcançável da perfeição. Porém, mesmo assim, Lilith e Eva depositaram sua crença nele, crença nas certezas dele, crença no saber dele, ainda que ao custo da saúde do corpo e da autonomia da singularidade.

Os transtornos corporais experimentados por Lilith só encontram um ponto de basta, quando uma contingência interrompe o experimento com a fuga do médico da localidade, já que ele estava em vias de ser capturado como o famoso médico nazista Mengele, o “Anjo da Morte”, conhecido como o assassino e torturador de milhares de pessoas em nome da ciência nazista, o qual, conforme a história, viveu foragido no sul da Argentina e em outros países da América do Sul.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Lacan, J. (1966-1967) “La Lógica del Fantasma” Inédito.

  • Lacan, J. (1972-1973 [1981]) “Aun” en El seminario de Jacques Lacan. Libro 20. Buenos Aires: Paidós.

  • Lacan, J. (1973 [2012]) “Televisión” en Otros Escritos. Buenos Aires: Paidós.